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Conto · Temas sensíveisSet 2026

Elefantinho Colorido

Primeiro capítulo do meu próximo livro. Uma palestra sobre saúde mental, completamente alinhada ao compliance. Um ppt impecável. Uma mosca de coffee break, absolutamente no controle. Até a Karen abrir a boca.

Pôster no estilo cartaz de cinema: título Elefantinho Colorido em amarelo e vermelho sobre fundo escuro, com os selos 'baseado em fatos reais' e 'Setembro Amarelo 2026'

Aviso de conteúdo: este conto é baseado em fatos reais e contém relato de abuso sexual infantil.

A vida de uma mosca de coffee break é foda. Aquela crosta crocante do pão de queijo de padaria. Aquela glicerina granulada e salpicada grosseiramente sobre bolo de cenoura de ontem. Todos aqueles suquinhos vibrantes. Um verdadeiro chamado da gravidade dizendo

 — vem, só vem.

Mas não, as palmas não deixam. As palmas sempre nos afastam do nosso chamado mais íntimo. Digo, como moscas.

Só que quem chega ao nível de senioridade que eu tenho nesse business sabe que o duelo tem vida curta. Quando eles finalmente se sentam e se concentram em parecer prestar atenção, é como se o mar vermelho se abrisse. E podemos enfim fazer o que a natureza nos convoca a fazer. Pousar.

No átrio da desatenção que desloca os olhares daquele buffet all inclusive pro ppt (ai, como eu amo os ppts) a gente se lambuza.

Não naquele dia.

Naquele dia a pergunta da Karen suspendeu todos os planos.

Eu cheguei a sentir pena do moço lá na frente. O buço gradualmente orvalhado, engordurado com gotículas cada vez mais densas de desespero, surpresa e sal. A borda da pizza no sovaco marcando mais que a marca da camisa de marca, tão bem passada e enfiadinha pra dentro da calça, tão cara quanto justa.

Era setembro. No seu primeiro dia naquela posição ele tinha um dever mole feito mastigar água pra alguém de sua estatura. Dar uma palestra. E ele tinha tudo. Um alto cargo escrito em inglês estampado no rosto, passagem por grandes empresas que sustentavam o arco sempre proeminente do peito, e um ppt cravejado de data-driven information em modernos tons de amarelo.

E tudo ia muito bem pra todos nós. Até que, não sei porque cargas d'água, lá pelo quinto slide, o pobre infeliz solta a despretensiosa pergunta

 — Galerinha, até aqui, alguma dúvida?

Eu não sei qual foi o raio da dúvida até hoje. Em minha defesa, ali pelo slide 2 eu tinha encontrado o rapaz perfeito. Um diabético de meia idade com a autoestima delirante dos que ostentam uma glicemia em dia. Aquela xícara ainda morna, 3 saquinhos de açucar ensopadas de café no fundo, encostada de lado. Perfeita. Eu sei que quando me vi satisfeita, saí pra encontrar com a galera que costuma ficar ali pela caixa de croissant. E no que eu subi tudo já estava imóvel. Em suspenso.

Menos a boca da Karen.

A boca da Karen mastigava todas aquelas palavras em voz alta sem filtro sem ar sem vírgula e sem qualquer chance de ser interrompida dissecava seu ponto e expunha seu nó e impunha as vísceras daquele domingo falando de coisas que nunca devem ser faladas em espaços cultivados sob a luz fluorescente não tinha como escapar não tinha como parar aquele domingo de continuar dando as cartas eu e a minha amiga brincávamos de qualquer coisa que envolvia saltar de uma altura e outra na recepção do prédio dela eu tinha o que uns seis ou sete anos ela qualquer idade que fosse um ano mais velha do que isso será que um ano nessa época faz tanta diferença entre saber o que estava pra acontecer e não ser capaz de suspeitar? eu me pergunto se ela sabia quando disse pra mim

 — vai você primeiro

depois que o moço moreno de jaqueta preta, filho de sua vizinha que já era bem velha, apareceu e perguntou

 — vocês querem brincar de elefantinho colorido?

e explicou que as regras do jogo dele eram diferentes que tinha que ser uma de cada vez pra ser mais legal e que a gente tinha que ir pro cantinho escondido pra ser mais legal ainda e fechar os olhos e abrir a boca pra tentar adivinhar a cor da tromba do elefantinho será que eu fui primeiro porque achava que era boa de adivinhação ou porque me sentia especial em ter só pra mim toda aquela atenção? sei que o segui para o cantinho escondido sei que fechei os olhos e abri a boca sei que senti o suor de sua mão molhar o topo da minha cabeça posicionada a tão poucos centímetros do chão que entre as batidas do meu coração tututututum ouvi o barulho do zíper pppprrrrrr e que trapaciei não aguentei espiei queria ganhar o prêmio eu queria falar direitinho a cor da tromba do elefantinho e poder contar pra minha amiga que eu acertei de primeira o que aconteceu depois do encontro entre a fresta borrada dos meus olhos que queriam ver e o olho petrificante daquela tromba reta que queria brincar no cantinho escondido e minúsculo da minha boca são estalos instantes sem antes nem depois como num sonho em que você simplesmente brota num cenário aleatório eu então do nada apareci de volta diante da minha amiga ela se ria e me dizia

 — mas também, você é muito trouxa

depois apareço de volta na garagem de casa estou diante da minha mãe ela se tremia e me dizia

 — pelo amor de Deus, seu pai não pode saber de nada

E eu consigo entender direitinho agora essa coisa do sonho. Eu também não sei dizer como, mas quando me vi de volta daquela lapada, ainda pairava no ar — sem ter avançado um milímetro que fosse da caixa de croissant, e o pior é que eram de frango, eu sou fissurada em croissant de frango — e a sala respirava vazia. A menos pelo QR code da pesquisa de satisfação ainda projetado na parede que o moço com título em inglês encarava sem de fato olhar. As cadeiras, ainda que meio tortas já de volta em seus lugares. Engraçado. Tudo era mas não era. Era como ver um quadro de Dalí. Apareço, sem saber como, na área aberta escapando das palmas que agora se empenhavam em dispersar a fumaça cinza e grossa entre um trago e outro.

Meu Deus, como tudo fedia. Tem coisa nessa vida que é pior que merda.


Notas da autora

1. "Elefantinho Colorido" é o primeiro capítulo do meu próximo livro, em construção. Aqui os capítulos subsequentes serão postados como parte da série que recebe o mesmo nome.

2. Meu objetivo é que você sinta o que significa o método aplicado. O que significa descer sem ressalvas a temas silenciados, complexos e sensíveis. E transformar isso em estruturas que as pessoas consigam habitar, atravessar e reconhecer como suas.

3. Se você sentiu, o método é pra você. Se não, não. E tudo bem.

Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio: Disque 100 (Direitos Humanos). A ligação é gratuita, anônima, 24 horas.

Humano não é
como a gente soa.
Não é fachada,
é a obra toda.